23/06/2011

Sobre "Terna ressaca"



"A fina camada translúcida de água que encobre a vista traz um leve sufocar de alegria, o coração bate acelerado, tal duas pedrinhas se chocando entre as mãos embaixo desta mesma água, da mesma onda, do mesmo mar em que o undívago olho tenta vislumbrar final feliz. Entre o olho e o sol forte, a fina camada sacode-se lenta, suaves empurrões levando o corpo em direção desconhecida, como quem espera serena a morte. O sal corta, mas é bom, ajuda a purificar, é dor prazerosa, tal qual o amargo de se ver livre por um mínimo de instante que seja. O corpo encharcado, garganta seca, ar cada vez mais ralo. O final é nascer, já por si só um desastre, ainda mais quando os olhos curiosos se embebem do sangue podre que turva a alma (...)".

Acho que cheguei ao ápice da negação da ação. O conto Terna ressaca parece mais um lamento, um fragmento de solilóquio tirado de alguma peça. É um texto obscuro; a ação é fragmentada e quase nula. O repúdio de alguns leitores será imediato, outros, por outro lado, se encantarão pelo lirismo exacebado apresentado em cada linha da protagonista que tenta dar continuidade a sua história no mundo de maneira inusitada. Acometida de grande mal e desprezada, sua vingança se faz tenra, terna, tal a ressaca do título. Um conto imagético que lembra muito meus primeiros escritos. Volta às origens? Acredito que não, apenas uma homenagem a elas. Qualquer dias desses as ondas de Terna ressaca quebrarão pelos olhos de novos leitores. Aguardem.

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